Egoísmo e Deus

Egoísmo pode ser entendido de várias maneiras, até mesmo confundir-se com uma espécie de “preservação da intimidade”. Mas convém pensar melhor…

Quando uma pessoa que tenta o suicídio, busca morrer de alguma forma, ao contrário do que pensamos, ela está na verdade, extremamente apegada à vida na medida em que busca desesperadamente encontrar uma saída, uma solução.

A tentativa de deixar de ser, é exatamente o que se encontra velado a essa pessoa no seu modo de ser num dado momento. A pessoa busca morrer precisamente por se perceber existindo a sua própria vida, embora possa encontrar-se em extrema angústia, o que a coloca em absoluto des-espero, quando tudo que possa esperar já não existe mais.

Podemos dizer tratar-se de um pensamento egoísta, quando essa pessoa des-esperada é julgada como alguém descrente, ou egoísta por que se vai para deixar alguma herança a quem fica, ou olhada por outro ângulo, covarde porque não é capaz de enfrentar a realidade e outros julgamentos que certamente irá sofrer.

O que está acontecendo é que essa pessoa abre mão do si mesmo, como se tal fosse possível, “eu” enquanto consciência, para ir em busca do nada para alguns, do fim para outros é para outros ainda, busca de alguma salvação, ou seja um deus que a acolha e salve, ou mesmo anjos e santos que a embalem, de alguma forma acreditando em passagem ou transcendência, até mesmo porque não existem deuses que se recusem a salvar ou protejer seus fiéis, nem tampouco existem deuses que ficam perambulando por este mundo.

Chegamos a questão crucial que se mostra ou aponta para uma cisão dentro do si-mesmo. Fomos educados de modo a construir uma crença esquizofrênica que nos divide entre o ego ou si-mesmo como estamos tratando aqui (eu – dentro) e “Deus” (fora) – faço uso, a partir de agora da palavra Deus entre aspas para que cada um possa se sentir entendendo Deus como concepção pessoal e íntima –  pois “Deus” encontra-se no mais alto dos céus, e desta maneira acredito que, tudo que faço para mim mesmo é egoísmo e portanto não sou merecedor da bondade Divina, pois “Deus” instituído e institucionalizado pelas religiões, portanto um “Deus” instituição  está permanentemente nos olhando do lado de fora para nossas entranhas doentias e nossos pensamentos corrompidos e assim para se manter funcionando e, mais atualmente, se enriquecendo, condena o egoísmo.

Se entendermos que o “si mesmo” ou aqui tratado ego é o próprio egoísmo, que não se perca pela raiz da palavra, é ele que nos impede de encontrar “Deus” que está dentro de nós. Parece óbvio embora o óbvio muitas vezes nos escape. O nosso eu, desesperadamente nos impede de vermos a nós mesmos. Ora, se a chama Divina está dentro de nós e o nosso eu nos impede ou torna nebulosa nossa visão, então tornamo-nos o próprio entrave para nossa transcendência.

Assim sendo, passamos a vida correndo atrás de um “Deus” que fica fora de nós. Aprendi ouvindo uma palestra de Bert Hellinger que nos pergunta: “que “Deus” seria esse que nos exige correr para alcançá-Lo? Que sentido poderia haver em um “Deus” que se esconde de nós ou nos faz correr até Ele?”

O suicídio ou um suposto desejo de morrer, instigante aqui a expressão “desejo de morrer” pois na nossa cultura ela encerra uma afirmação contraditória, já que definimos desejo como uma coisa boa e jamais almejamos desejos de coisas ruins em especial para nós mesmos. Esse desejo apresenta-se como uma saída para dentro, para nossas próprias questões, para a  angústia que se faz instalada configurando um dilema,  o ser-no-mundo em busca de sua liberdade e esse mesmo ser-no-mundo caindo para o fundo de sua impotência quando deseja  alçar um vôo para “fora” de si mesmo, isto é para a sua consciência de pensar o nada como fim e solução ou pensar um tudo cheio de promessas absolutamente fantasioso. No Apocalipse de João, o último livro do Novo Testamento, temos a descrição da Nova Jerusalém, com suas ruas de ouro e jaspe luzente, com brilho inigualável. De certa forma essa descrição está na nossa cultura religiosa e pode “motivar o desejo de morrer” para chegar a um destino mais rapidamente e livre de todas as preocupações e responsabilidades.

Para ser no mundo e sentir-se situado, será preciso reconhecer-se no mundo (consciência de si mesmo e do mundo que o cerca). Na medida em que esse ser busca transcender, quer seja para um “Deus” imaginado pensando estar ao seu alcance um mundo de soluções, quer seja um “Deus” almejado como promessa religiosa, ou ainda um “Deus” libertador, redentorista para levar os seres à Nova Jerusalém, interpõe-se uma questão. Esse “Deus” redentorista, no entanto nada poderá fazer, uma vez que na concepção cristã, a graça de “Deus” estabelece uma condição de aceitação não egoísta mas amorosa e de renúncia e entrega do si-mesmo (consciência).

Vale dizer que consumado o suicídio como saída para “Deus” esse mesmo “Deus” o rejeitará pois quer o sacrifício ou o atalho para chegar até “Ele”. Nesse caso o suicídio para ir até “Deus” constitui a negação da vida uma vez que o dom da vida está sendo menosprezado até que “Deus” a tome de volta. A oferta da vida já veio de um “Deus” que está fora ofertando graciosamente todo o seu amor, porém solicita uma entrega incondicional, isto é, torna-se preciso arrependimento e remissão  do egoísmo que estava prestes a renegar a vida que foi doada graciosamente por Deus.

Paulo escreve na carta aos Gálatas (cap. 2 verso 20) “já não sou eu mais que vivo, mas Cristo vive em mim”. No caminho reflexivo que fazemos o si-mesmo perdeu a consciência e o ser-no-mundo, uma vez que espera graciosamente tudo, não vislumbra a condição ontológica, consciência ampla de possibilidades e não pode elevar-se e buscar ampliação dessa consciência, uma vez que tudo já está feito para o si-mesmo e pelo si-mesmo. Assim chegamos a uma conclusão que nos faz dizer que esse fim desejado e provocado de imediato, leva para dentro, se ainda houver tempo para o eu reconhecer-se no mundo e suas possibilidades.

A prática religiosa bem poderia ser importante, útil e libertadora se pensasse a experiência de transcender na busca de consciência cada vez mais elevada. Do contrário é ou será transformada em uma religião fechada em si mesma, limitando o ser humano, insistimos, o ser-no-mundo impossibilitado de se ver como ser de possibilidades.

 

 

 

 

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