SOLIDÃO ACOMPANHADA

Você já deve ter ouvido a expressão “solidão à dois”. É disso que estou falando. Podemos dizer que esta expressão contém algumas afirmações ao mesmo tempo que indaga.

A primeira é condição de estar ou ser só como um fato definitivo, enquanto não nos é possível sermos pessoas numa outra condição. A segunda é que podemos, de fato, estar acompanhado enquanto ser humano só. Se abandonado, se por opção ou outra contingência da vida, não estamos analisando aqui. A terceira que parece conter uma queixa, é de querermos uma companhia enquanto estamos nos sentindo só.

A situação de solidão acompanhada pode ter inúmeras causas, mas é bastante comum que duas pessoas tenham chegado a tal situação e se queixam dela porque o entusiasmo do encontro, se quisermos usar ilusão ou paixão também será apropriado, talvez tenha se desgastado. Causas desse possível desgaste podem estar nas personalidades de cada uma mas também na convivência que não atende o outro. A companhia requer companheirismo, redundante não é? mas também compartilhamento. Se não há o que dizer não se compartilha nada.

Estarem juntos requer ao menos um pouco do olhar para um mesmo ponto, de vez em quando, no mínimo. A situação idílica de estarem duas pessoas juntas por causa do afeto, necessita de projetos em comum e não apenas sensações de falta de alguma coisa que ambos podem conseguir individualmente. A relação de união de casais ou de parceiros exige uma coisa que constitui um projeto de dois.

Estar junto com outra pessoa, não pressupõe nem pode ser esquecida pela falta de tempo. A falta de tempo esconde uma falta de disposição que reduz consideravelmente a dedicação. Dessa forma ambos deixam de formar um repertório de ações e experiências que poderiam nutrir condições de solução das demandas que a convivência impõe. A solidão acompanhada constitui uma troca do que se tem de coisas boas, em geral logo deixadas de lado, e também ruins, vivendo juntos mediante forças de intenções que tenderão a aumentar dúvidas e desconfianças dos sentimentos de ambos.

Pactos ou compromissos secretos ou pre existentes à relação, vão desfigurar os compromissos propostos na reunião das duas pessoas. A instituição que se convencionou chamar de casamento vai aos poucos desvelando o que cada uma das pessoas leva de segredos consigo. Tais segredos nas relações consensuais não subsistem por muito tempo pois serão revelados por atos, jeitos, gestos, tons de voz, hábitos e contradições de pontos de vista que terão a função de explicitar ou tornar público, um pouco do que vai na alma de cada um.

Neste item dos pre existentes se encaixam também as características familiares vividas e trazidas projetivamente para as relações, expectativas e costumes, modelos e memórias, heranças e atribuições graciosamente doadas pelas famílias de origem significando estruturas pré moldadas do novo relacionamento.

Se você já viu um pássaro ir em busca de gravetos e gotículas de lama para construir um ninho ou uma casa, vai entender que a estrutura da relação depende de infinitos galhos e ramos que a torna capaz de sustentar o relacionamento. Esses gravetos representados por gestos persistentes e repetitivos de atenção e dedicação formam ações de colaboração ou compreensão e traduz as potencialidades de um encontro em permanência durável.

É assim que os horizontes dos relacionamentos vão se distanciando e parecem tornar o projeto de duas pessoas impossível de ser realizado. Emergem neste ponto os projetos individuais que parecerão muito mais próximos e realizáveis e não mais o projeto comum aos dois.

Final da relação bastante previsível variando as justificativas: o amor acabou (como se tivesse existido em algum momento!); incompatibilidade dos gênios ou falta de afinidades entre os gêneros; por fim, não deu certo, simplesmente.

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