A mulher bonita do novo presidente

Nos voltamos naturalmente para a beleza. Ela é valorizada na medida em que atende às nossas necessidades de harmonia. A nossa alma tem carência de harmonia tanto nas formas como nos gestos e atitudes…

A maneira como tenho visto na mídia o tratamento dado à Marcela, esposa do agora presidente Themer, me chama a atenção.

As piadas maliciosas, machistas ou de admiração invejosa dos primeiros tempos, aos poucos vem sendo substituídas por algum outro sentimento, que seria pretensioso aqui nomear.

No entanto, aos poucos podemos perceber no ar, uma atmosfera de complacência, um velado orgulho em possuirmos agora um presidente cuja mulher afirma e confirma a vaidade com que nós brasileiros, em especial os homens,  alimentam uma certa e discreta (por vezes até indiscreta) satisfação.

Ainda que “machistamente” a nossa cultura e os nossos valores, enalteçam a beleza da mulher brasileira, produz uma avaliação que, rapidamente é transformada em uma afirmação indiscutível, portanto não mais um senso comum para ser uma verdade estabelecida. Neste ponto digo também por parte das mulheres. Haja à vista o alvoroço recente causado pela afirmação “bela, recatada e do lar”. Obviamente não vou aqui entrar no mérito de quem quer que seja.

Diante disso, faço a mim mesmo várias perguntas, uma vez que, como Psicólogo, é um quesito importante da minha profissão. Será que tínhamos uma presidente feia? Será que uma imagem de mulher um tanto fora dos padrões atuais de beleza causava incômodo? Será que a própria palavra “presidenta” que é correta, está nos dicionários, utilizada inclusive por Machado de Assis em “Memórias Póstumas de Bras Cubas” de 1880, e gramaticalmente exceção à regra de termos que não possuem a forma masculina, constituiu-se em “feiosidade” gratuita ?

Em conversa com os meus pensamentos deduzo que o cérebro humano na sua percepção estética, aprecia as formas obedecendo um certo padrão de harmonia nos seus traços, somado ainda a outros elementos como discrição, silêncio, recato, tom de voz, e outros. Até mesmo a simetria de um rosto é vista como mais próxima ou mais distante da perfeição estética e da beleza. Vinicius de Moraes não se furtou em dizer que a beleza é fundamental embora não nos tenha dado nenhuma medida entre o feio e o belo. Kant nos diz que “belo, é tudo quanto agrada desinteressadamente.”

Mergulhando nas perguntas, corremos o risco de ir apressadamente às respostas e ainda mais se apreciamos os detalhes antes do todo. Seneca diz que “uma mulher bonita não é aquela de quem se elogiam as pernas ou os braços, mas aquela cuja inteira aparência é de tal beleza que não deixa possibilidades para admirar as partes isoladas. Se uma presidenta nos inspirou tanta antipatia, convém olharmos para um todo, e as partes isoladas deixarão de existir.

No entanto, quando os nossos olhos se prendem às partes isoladas deve ser porque um todo disforme estava no trazendo a necessidade das nossas almas que pudessem nos mostrar harmonia de valores e de condutas para que a feiura aparente não produzisse uma figura repugnante. Enquanto para nós cidadãos, longe de uma intimidade planaltina, só o que foi possível “ver” foram as mentiras proferidas e não sinceridades expressas, palavras vazias destituídas de sentidos e não coerências.

 

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